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Ninguém nunca fez o que esses caras estão fazendo!

Por João Dannemann

O Barba

No dia 30 de novembro de 2019, James Harden teve uma das suas melhores performances na carreira. Em apenas 30 minutos de jogo, ele marcou 60 pontos com um aproveitamento verdadeiro de arremessos de 88%. 88 por cento. Para botar sua performance em perspectiva, naquela noite, Harden teve uma contagem de jogo de 52,4. A décima maior contagem de jogo conquistada na história da NBA.


Para aqueles que não são familiarizados com essa estatística, a contagem de jogo é um número que mede a performance individual de um jogador, através de fatorações reais e virtuais de todos os fundamentos durante um jogo. Em outras palavras, James Harden teve, estatisticamente, uma das dez melhores performances da história da NBA, em apenas três quartos. 

Se naquele jogo Harden tivesse jogado seus 37 minutos de média na temporada, ao invés de apenas 30, à medida que ele estava jogando, ele teria, estatisticamente, o melhor desempenho individual da história do basquete. Em 1990, quando Michael Jordan determinou o recorde da NBA de uma contagem de jogo, com 64,6, ele jogou 50 minutos na partida. 

Numa conta simples, se James Harden jogasse 50 minutos naquela partida, ele teria uma contagem de jogo de 87,4. Quilômetros à frente de qualquer jogador, em qualquer jogo disputado, na história da NBA. Assim, mesmo em um simples jogo de novembro, aí está James Harden, fazendo história. Na verdade, ele não está só fazendo história. Ele está ajustando o palco para o futuro da liga. Para melhor, ou para pior.


Há pouco tempo atrás, 30 pontos numa partida era algo grande. Triplos-duplos eram algo raríssimo. Agora, 40 é o novo 30 e triplos-duplos são mais comuns que qualquer coisa. Durante toda a temporada de 2011-12 da NBA, houve oito jogos onde um jogador marcou 45 ou mais pontos. Oito. Na última temporada, esse número decolou para 49 partidas. Há apenas oito anos, 45 pontos num jogo era algo espetacular. Hoje, isso acontece algumas vezes em uma semana.

Na verdade, nós só temos algo em torno de seis, sete semanas de temporada 2019-20 e já houve 12 jogos nos quais atletas fizeram 45 ou mais pontos. Mas a extensão dessas performances históricas não se acaba em apenas um jogador. Parece que, nessa temporada, a NBA alcançou um ponto de virada na história. Nós estamos vendo estatísticas absurdas, números enormes e recordes caindo virtualmente toda noite.


Em média, a NBA produz três jogos para o top 100 histórico toda temporada. Entre as temporadas de 2011 e 2013, a liga teve apenas três desses jogos absurdos e atemporais. Mas, em apenas poucas semanas na atual temporada, e já aconteceram quatro performances de top 100 em todos os tempos. 

A NBA está passando por uma completa mudança em estilo de jogo, produtividade e no significado de ser ótimo. E James Harden está liderando o caminho. É difícil imaginar uma liga com mais de 70 anos de história ainda passando por mudanças tão drásticas. E, ainda assim, cá estamos nós. Quase 2020, e a liga está mudando mais agora do que nas últimas décadas. Jogadores estão encontrando brechas em regras, novas maneiras de criar produtividade. Métricas avançadas dão aos times estilos de jogo que nem sempre são divertidos de se assistir, mas são muito eficazes. 

Até o momento na temporada, três jogadores estão com médias de 30 pontos ou mais por jogo. É claro que isso pode mudar na medida que a temporada se desenrola, mas isso só ocorreu apenas uma outra vez nas últimas quatro décadas. Na última temporada, todos os times da NBA tiveram uma média de ao menos 103 pontos por jogo. Na temporada de 2011-12, apenas oito anos atrás, apenas três times na liga inteira tiveram média de pelo menos 103 pontos por jogo (Thunder, Nuggets e Spurs).


Nós estamos vendo uma forma absolutamente nova de se jogar basquete nascer bem à nossa frente. E, goste você ou não, altera drasticamente o contexto do jogo. Por exemplo, na temporada de 2011-12, o líder de pontuação por jogo da liga foi Kevin Durant, com 28. Um abismo colossal dos quase 40 pontos que James Harden tem em média hoje, que soa tão estranho. Sério, apenas não parece certo. Parece um erro de digitação que não foi consertado ainda. Mas não, não tem nenhum erro. É só James Harden. Enfim...

Voltando tudo para 2012 novamente, os líderes de pontuação da NBA eram esses:


Mas ajustando os números para os modos de jogo da NBA atual, a lista fica mais ou menos assim:


Um 32,2 soa muito melhor do que um 28.

Quando você vê um jogo ao vivo, é muito óbvio que o jogo mudou absurdamente. Quer dizer, quando um cara acerta apenas 29% dos seus arremessos de quadra, erra 16 arremessos de três pontos e ainda assim consegue fazer 50 pontos em um jogo, você sabe que algo não está certo. Mas esse é o estado da atual NBA e é com isso que temos que lidar. Mas, isso não é necessariamente uma coisa ruim. 

Alguns fãs gostam mais de um jogo metódico, mais lento de movimento de bola e defesa sufocante. Já outros preferem uma velocidade mais alta, sem energia gasta na defesa porque é toda utilizada no ataque, apostando em bolas mais longas. Mas, de todas as grandes mudanças que nós estamos vendo nessa ainda jovem temporada da NBA, existem algumas melhorias tomando forma. Uma dessas mudanças sendo a jovem superestrela chamada:

Luka Doncic

Sim, ele não é uma estrela, ele é uma superestrela. Com apenas 20 anos de idade, na sua segunda temporada na liga, Luka está com uma média próxima de um triplo-duplo de 30 pontos, enquanto lidera o Dallas Mavericks para a segunda melhor campanha do Oeste. O Dallas Mavericks. Um time que teve a segunda pior campanha na conferência temporada passada, é agora uma potência no Oeste. E, sejamos honestos, se você der uma rápida olhada nessa equipe do Dallas, você está olhando para um dos piores times da liga, discutivelmente. 

O jovem é absolutamente fenomenal. E ele usa essa nova era do basquete em sua vantagem, enfatizando suas habilidades excepcionais, enquanto mascara suas fraquezas. Ele é um mutante no lado ofensivo do jogo e, apesar de não ser o melhor dos defensores, felizmente essa parte do jogo se tornou quase que irrelevante. Tudo que você precisa fazer é ser ofensivamente superior ao seu adversário. O que Luka já provou ser capaz de fazer todos os dias. É só torcer para alguns arremessos caírem e bum: você é uma superestrela da NBA!

Eu poderia falar por uma hora sobre as habilidades mágicas de Luka, com apenas 20 anos de idade. Mas para te dar uma noção do quão bem o jovem vem jogando, um pouco mais abaixo você pode ver uma lista com grandes jogadores da história da liga e suas respectivas melhores temporadas em termo de eficiência. Para chegar a esta lista, um atleta tem que fazer uma temporada tão incrível que entraria para a história. 

Aí estão, por exemplo, a primeira temporada na qual Russell Westbrook teve um triplo-duplo de média, a revolucionária temporada de 2015-16 de Stephen Curry, a temporada de 1962 de Wilt Chamberlain que praticamente determinou o que é possível de se fazer em uma quadra de basquete. Todos os atletas com um troféu ao lado do nome foram MVPs nas temporadas em questão. Uma lista tão intocável que caras como Kobe Bryant, Larry Bird, Magic Johnson, Karl Malone, Julius Erving, Nowitzki, Duncan, Barkley e inúmeros outros nem aparecem. 

Mas, sabe quem aparece? Um jovem esloveno de apenas 20 anos: Luka Doncic. E ele não só aparece nessa lista de melhores níveis de eficiência, mas aparece lá no topo, acima de todos os jogadores da história da NBA. 20 anos de idade. E está tendo uma temporada de maior eficiência que qualquer outra superestrela em todos os tempos. Vale ressaltar que James Harden está lá no topo também. Acho que está tendo uma boa temporada, talvez.


Bom, na verdade, eu menti. Tem um jogador que tem um nível de eficiência maior que Luka.

O mutante grego


É... nenhum outro jogador na história da NBA teve um nível de eficiência maior que 32 e Giannis está tendo um de quase 34. Até então, nessa temporada, Giannis está tendo, por muito, estatisticamente a melhor temporada da história da liga. O que nos leva à próxima melhoria trazida por essa nova era do basquetebol. 

Numa liga na qual times arremessam 40 bolas de três pontos por jogo, aonde exagerar faltas parece ser uma estratégia eficaz e metade das jogadas feitas parecem com andadas, você tem um espécime físico que parece que foi retirado diretamente da década de 1990 e foi transplantado em 2019. Um cara que usa seu comprimento, tamanho e força para vencer seus adversários muscularmente e em vontade. 

Um jogador que está aprendendo aos poucos como ter, com delicadeza, 30 pontos e 15 rebotes por jogo. Mas, ao mesmo tempo, continua a maltratar fisicamente o resto da liga, porque, bom... ele pode. Ele é uma das últimas superestrelas que consegue derrubar 40 pontos na sua cabeça e descer para a defesa te bloqueando facilmente. E, melhor ainda, ele não só tem a capacidade de fazer, mas ele tem a vontade de fazer coisas como essas. 

Numa liga que, às vezes é difícil de se assistir, existe o mutante grego. O cara que não tem medo de invadir as defesas, com capacidade de voltar e defender com ainda mais força. Ele não pode se apoiar num arremesso de média ou longa distância. Ele ainda não tem essas capacidades no seu arsenal. Ainda. Pelo menos não num level tão elevado. Mas, por mais que sua falta de capacidades ofensivas pareça uma maldição, na verdade é uma benção disfarçada. 

Enquanto o resto dos jogadores está se amontoando em bolas de três, implorando por faltas e tentando ser mais rápido que seus adversários, Giannis está preso num estilo de jogo que funciona dia, após dia, após dia, sem falhar. Enquanto times vivem e morrem por arremessos de três, há Giannis, forçando suas entradas no garrafão, onde ele sabe que conquistará os dois pontos, sempre. E nós ainda nem citamos que ele levou os Bucks à melhor campanha da NBA com um bom time ao seu lado. 

Para botar a atual temporada do grego em perspectiva, aqui estão os números de Shaquille O'Neal na temporada mais dominante da sua carreira, em 1999-00, quando conquistou o prêmio de MVP. E, ao lado, estão os números de Giannis em 2019-20.


Já estamos quase em 2020. Times da NBA estão marcando 111 pontos num jogo e ainda assim perdendo por quase 50. Caras têm mais lances-livres convertidos do que arremessos de quadra feitos. Outros estão em quadra tentando ganhar um Oscar, ao invés de só jogar basquetebol. E, no meio do caos, tem Antetokounmpo, jogando como se fosse 1999. 

Luka e Giannis, apesar de muito diferentes, têm todas as qualidades para transcender nessa nova era do basquete. Eles não estão preocupados com o que outras pessoas pensam. Eles querem ganhar, querem sempre melhorar e querem, antes de tudo, jogar basquete. 

Mas nós estamos falando de uma liga na qual um jogador de envelhecimento inexistente, está na sua 17ª temporada e mesmo assim com médias impressionantes. Um cara com uma barba em Houston está fazendo quase 40 pontos por jogo. Um jogador pode estar no banco um terço do tempo e ainda é considerado, discutivelmente, o melhor jogador do mundo. Esses dois jovens atletas estão impressionando com seus grandes números e se sobressaindo a todos os demais.

A pergunta que fica é: Harden, Luka e Giannis estão, de fato, fazendo três das melhores temporadas da história da NBA? Ou os números não contam a história sozinhos?


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