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Cruzeiro: O campeão em meio as ditaduras

Por: Alessandra Barreto, Aloysio Petitinga e Marcelo Noia

Elenco campeão do Cruzeiro, representado no poster da Revista Placar (Foto: Revista Placar)

Contexto histórico

Em 1976, o continente Sul-Americano passava por uma série de duros e sangrentos regimes militares. Paraguai, Chile, Uruguai, Argentina e Brasil, são exemplos de países que já sofriam com a forte repressão militar. No território brasileiro, a Ditadura Militar, que durou de 1964 à 1985, tinha como presidente da época o General Ernesto Geisel, o quarto da lista - ele presidiu o país de 1974 até 1979. 

Geisel sucedeu o também militar, Emílio Garrastazu Médici, que governou o país de 30/10/1969 até 15/03/1974 e marcou um dos momentos de mais repressão na ditadura no Brasil. 

Durante esse período, o Brasil ganhou apenas três títulos da Libertadores: Cruzeiro (1976), Flamengo (1981) e Grêmio (1983). Por outro lado, a Argentina foi hegemônica e conquistou 14 troféus da competição: sete títulos do Independiente, três do Estudiantes, dois do Boca Juniors, um do Racing, além de um do Argentinos Juniors. Os outros cinco títulos foram conquistados por: Peñarol (URU), duas vezes, Nacional (URU), também em duas ocasiões, e pelo Olimpia (PAR), que levantou o troféu uma vez.

Geisel foi o presidente do Brasil no ano da conquista cruzeirense (Foto: Manoel Pires/Folhapress)

Já na Argentina, em 24 de Março de 1976, se iniciou a Ditadura Militar. O regime teve seu início após a  deposição de Isabelita Perón, no período em que prevaleceu o chamado “Processo de Reorganização Nacional”, uma Junta Militar, composta pelas três armas das Forças Armadas: Exército, Marinha e Aeronáutica. Posteriormente, essa união assumiu o poder e, em seguida ao golpe, indicou o general Jorge Rafael Videla para presidir o país. 

A partir de então, se desencadeou o endividamento externo, a centralização do poder nas mãos dos militares, assim como a desindustrialização. Esse movimento contou com a com participação de civis provindos da elite nacional e do Terrorismo de Estado. Durante essa época, além do ditador Videla (1976-1981), Roberto Eduardo Viola (29 de março de 1981 à 11 de dezembro do mesmo ano), Leopoldo Galtieri (1981-1982) e Reynaldo Bignone (1982-1983), também comandaram o país. 

O regime, que acabou em 1983, prejudicou bastante a economia do país e ainda ficou marcado pela derrota na guerra contra o Reino Unido, pela posse das Ilhas Malvinas. Todos os generais integrantes das juntas militares foram julgados e condenados posteriormente pela tortura, assassinato e morte dos milhares de argentinos. Estima-se que mais de 30 mil pessoas tenham sido mortas durante esse ciclo. 

Formato da competição

A Libertadores de 1976 era formada por cinco grupos, compostos por quatro equipes, onde todas se enfrentaram em partidas de ida e volta, na primeira fase. Posteriormente, os primeiros colocados de cada chave avançam para às semifinais e se juntavam ao campeão da temporada anterior, formando mais dois grupos com três times em cada. 

Por fim, somente os líderes das chaves continuavam na competição e passavam de fase, chegando até a grande final, que seria disputada em até três confrontos. Além disso, é importante destacar que não havia o critério de desempates por gols.

O ano do Cruzeiro 

O elenco da Raposa no ano da conquista continental (Foto: Reprodução/ Internet)

Na competição continental, a equipe Celeste teve uma campanha praticamente irretocável: foram 13 jogos, 11 vitórias, um empate e somente uma derrota, justamente para o River Plate, em Buenos Aires, na final. Além disso, o time comandado por Zezé Moreira sofreu 17 gols e balançou às redes 46 vezes - o que dá uma média de, aproximadamente, 3,5 gols por jogo. Palhinha com 13, Jairzinho com 11 e Joãozinho com 8 gols, foram os principais goleadores da equipe na competição continental. 

Já no Campeonato Brasileiro e no Campeonato Mineiro, as campanhas cruzeirenses deixaram muito à desejar. No estadual, a Raposa foi facilmente vencida pelo rival Atlético e perdeu as duas partidas da final, por 2x0. Enquanto no Brasileirão, o time não passou da segunda fase e foi eliminado no grupo com a Portuguesa, Uberaba, Confiança e Londrina.

O ano do River Plate 

O forte time dos Millonarios esbarrou na mágica equipe Celeste, na final (Foto: Reprodução/ Internet)

Na edição de 1976, o time argentino, assim como os brasileiros, manteve uma boa campanha durante toda Libertadores. Com oito vitórias, um empate e três derrotas, sendo duas na disputa com o Cruzeiro. A equipe comandada pelo ídolo Ángel Labruna, campeão 15 vezes com o River, entre sua passagem como treinador e jogador, ainda contava com nomes como Passarella, Perfumo, Norberto Alonso, Ubaldo Fillol e Oscar Más, por exemplo.

Já no Campeonato Argentino, os Millonarios também ficaram com o vice-campeonato. Após liderar seu grupo na primeira fase, a equipe eliminou o Quilmes nas quartas, os Talleres nas semifinais e perderam disputaram a final do campeonato para o arquirrival, Boca Juniors.

A final

Cruzeiro e River fizeram confrontos bastante físicos durante as três partidas da decisão (Foto: Reprodução/ Internet)

No primeiro confronto da decisão, mais de 58 mil pessoas foram prestigiar a primeira final da Libertadores da história do Cruzeiro. E não poderia ser melhor. Logo aos 21', Nelinho abriu o placar com um belo gol de falta. Em seguida, aos 29 e 40 minutos, Palhinha marcou duas vezes e ampliou o placar - incluindo um belo gol por cobertura, no final do primeiro tempo.

Entretanto, aos 18 minutos da etapa complementar, Oscar Más marcou de pênalti e diminuiu o placar. Por fim, Valdo, aos 35', saiu do banco para dar números finais ao duelo. 4x1.

Na segunda partida, o único tropeço Celeste. Diante de mais de 90 mil torcedores, no Monumental de Nuñez, os Millonarios abriram o placar logo aos 9 minutos, após uma bela cobrança de falta de Juan José López. Empurrados pela torcida, a equipe comandada por Ángel Labruna se manteve bem no primeiro tempo e foi para o vestiário com a vantagem.

No retorno do intervalo, o Cruzeiro retornou bem do intervalo e empatou logo aos dois minutos, com o artilheiro Palhinha, após uma bela troca de passes na entrada da área do River. Contudo, aos 30', Pedro Gonzalez completou o rebote da finalização de Luque e manteve os argentinos vivos na disputa do título.

Já no terceiro e derradeiro confronto, 60 mil pessoas compareceram ao Estádio Nacional do Chile, em Santiago. Enquanto a equipe de Buenos Aires não contou com as importantes presenças do goleiro Ubaldo Fillo, Passarella, Perfumo e JJ López, o time mineiro entrou em campo sem o seu vice-artilheiro, Jairzinho.


Aos 23 minutos, o Cruzeiro abriu o placar. Após cruzamento na área, Urquiza cortou o levantamento com a mão e o juiz não exitou em marcar a penalidade. Na cobrança, Nelinho não teve problemas para deslocar o goleiro e marcar. Logo depois, o River teve a chance de empatar, mas esbarrou em na defesa de Raul Plassmann, que salvou em cima da linha.

Já na etapa complementar, aos 10', o Cruzeiro aumentou a vantagem. Após uma roubada de bola no ataque, Zé Carlos tabelou com Ronaldo e deu um belo passe para Eduardo, que passava pela ala direita. De primeira, o camisa 7 soltou uma bomba, sem dar chances para Landaburu.

Três minutos depois, aos 13', começou a reação dos hermanos. Primeiro, Oscar Más, em cobrança de pênalti, descontou. Logo em seguida, aos 17', a grande polêmica da partida: o juiz marcou falta no meio de campo e enquanto os brasileiros reclamavam com o árbitro, Alonso cobrou rápido e achou Urquiza na esquerda, que finalizou cruzado e empatou o placar.

Por fim, aos 43', o gol da glória cruzeirense. Partindo para o ataque, Palhinha se livrou da marcação e recebeu a falta na entrada da área. Com receio de uma possível finalização do especialista Nelinho, Landaburu colocou oito jogadores na barreira. Entretanto, enquanto o lateral se ajeitava para bater, Joãozinho se antecipou, surpreendeu a todos e cobrou com perfeição, no ângulo do arqueiro argentino, que nem se moveu. Golaço.

Posteriormente, ainda houve tempo para expulsões após uma briga generalizada no gramado, contudo, o placar se manteve inalterado e o Cruzeiro se sagrou campeão da América pela primeira vez.

Roberto Batata

Roberto Batata em sua época pelo Cruzeiro, com a sua eterna camisa 7. (Foto: Reprodução/ Internet)

Em meio a excelente campanha cruzeirense na Libertadores, uma tragédia. Após golear o time do Alianza, no dia 12 de maio, no Peru, por 4x0, com um gol de Batata, a delegação da Raposa voltou ao Brasil. 

Logo em sua chegada a Belo Horizonte, Roberto, na época titular absoluto da equipe, pegou seu carro e partiu rumo a Três Corações, cidade no sul de Minas. Denise, sua esposa, e Leonardo, seu filho de apenas 11 meses estavam na cidade mineira.

No quilômetro 182 da Rodovia Fernão Dias, Roberto Batata bateu de frente com um caminhão e morreu na hora. O acidente abalou terrivelmente os jogadores do Cruzeiro e o mundo do futebol. A Federação Mineira de Futebol (FMF) decretou luto oficial de uma semana e cancelou duas rodadas do Campeonato Mineiro.



O Cruzeiro só voltou a jogar no dia 20 de maio, novamente contra o Alianza, desta vez, no Mineirão, pela Libertadores. Cerca de 30 mil pessoas foram ao estádio homenagear o ídolo. E pétalas de rosas foram jogadas na parte direita do gramado, setor onde Batata atuava. Os jogadores em campo também prestaram sua homenagem ao amigo: Ganharam o jogo por 7 a 1. Sete era exatamente a camisa usada por Roberto Batata. Ela ficou estendida ao lado do campo durante todo o jogo. 

O atleta tinha apenas 26 anos e disputou 285 jogos pelo Cruzeiro, marcando 110 gols e conquistando 6 títulos.

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