ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Basta de racismo!

Por: Marcelo Noia


Taison se revoltou em campo e respondeu aos insultos vindos da arquibancada (FotO: OLEKSANDR OSIPOV/ REUTERS)
Não dá. Não dá para não falarmos sobre as rotineiras atitudes racistas que vão ecoando nas arquibancadas de diversos estádios de futebol e transcendem para a sociedade. Do Brasil à Itália. Da Bulgária à Ucrânia. O racismo está em todas as partes e precisa ser combatido. De antemão, precisamos deixar claro: não podemos tolerar esse tipo de ato e é necessário repreendê-lo sempre. 

Muito mais do que um insulto pela cor de pele, o racismo mata - e muito. Até porque, o que está em jogo não são apenas ofensas verbais. Para se ter ideia, o Atlas da Violência, estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revelou que, em 2017, 75,5% das vítimas de homicídio no Brasil são negras.

Outro número assustador e alarmante foi publicado pelo Globoesporte.com. O site fez um levantamento com 163 jogadores e técnicos negros, de clubes que atuam pelas quatro principais divisões nacionais, abordando o racismo no futebol brasileiro. Dentre eles, 48,1% afirmaram já terem sido vítimas de algum insulto racista. A pesquisa ainda revelou que 92,4% dos casos ocorreram em estádios de futebol e que em 87,8% das vezes, não houve denuncia contra o agressor. Em contrapartida, 69,4% já presenciaram alguma cena dessa natureza.

Nesse final de semana, mais duas ocorrências ligadas a brasileiros ganharam os holofotes. Na Ucrânia, os brasileiros Taison e Dentinho sofreram com xingamentos dos torcedores do Dínamo Kiev, assim como um segurança que trabalhava no clássico entre Cruzeiro e Atlético. Nesse caso, um torcedor do clube alvinegro olhou para o trabalhador e afirmou: "Olha sua cor!". 

Além das situações citadas, o episódio na Bulgária, quando os torcedores locais xingaram os jogadores ingleses que eram negros e ainda fizeram gestos nazistas, também chamou a atenção global. Como punição, a UEFA confirmou uma multa de 75 mil euros para a seleção búlgara e uma partida de portões fechados. Já na Itália, as repreensões seguem brandas e ineficientes.


Além dos gritos racistas, alguns búlgaros também fizeram saudações nazistas (Foto: Nikolay Doychinov / AFP)


Impunidade com tempero italiano

Se tem algum país que podemos utilizar como exemplo para ilustrarmos os casos de racismo e impunidade no futebol, esse local vem sendo a Itália. Na atual temporada, os estádios do país tetracampeão mundial viraram palcos para manifestações racistas. Os acontecimentos estão ocorrendo em quase todos os finais de semana no país da bota e nenhum dirigente ou político age para intervir.

Jogadores de diferentes países ou idade são insultados por torcedores que confiam na falta de punições contra essa doença social. Para se ter uma ideia, somente nessa edição da Série A, em 12 rodadas, já foram registrados cinco casos de intolerância e em nenhuma das ocasiões houveram repreensões à altura.

A Federação Italiana, por exemplo, não puniu o Cagliari alegando que o número de pessoas imitando sons de macacos era pequeno. Já com relação a Atalanta, a medida foi uma multa de 10 mil euros - por outras palavras, um nada, comparando com a gravidade da situação.

Além desses casos, ainda houveram mais três acontecimentos: contra o Milan, torcedores do Verona tiveram atitudes racistas e não sofreram nenhuma condenação. Já contra o Brescia, a solução dos dirigentes italianos foi o fechamento do setor destinado aos Ultras, por conta de insultos destinados a Balotelli. 

Por fim, o Brescia, clube do próprio Balotelli, também atuou uma partida sem a presença da Curva Nord, devido a xingamentos proferidos por seus torcedores, contra o bósnio Pjanic, da Juventus.

Naturalização


Revoltado com os insultos, Balotelli foi acalmado por seus companheiros e adversários (Foto: Getty Images)

Para agravar o contexto, a naturalização desses atos vem sendo algo recorrente na Itália. 
O Verona chegou a publicar um comunicado no qual Maurizio Setti, presidente do clube, afirmou que "nada aconteceu" com Balotelli. Setti ainda complementou dizendo que os torcedores são "irônicos, não racistas". 

Além dele, o treinador da equipe, Ivan Juric, também disse que não houve gritos racistas. Segundo ele: "Podem ter vaiado ou tirado sarro de um grande jogador, mas não houve nada, nada. Eu já fui chamado de ‘maldito cigano’ várias vezes (...). Fico enojado com racismo, e serei o primeiro a condená-lo quando acontecer, mas não foi isso. Ele foi provocado com vaias e gritos sarcásticos, mas não eram racistas".

Pois bem, acha que acabou? Infelizmente, preciso dizer que não. Políticos da cidade, incluindo o prefeito, Federico Sboarina, diminuíram a denúncia de Balotelli. Um grupo de conselheiros do Estado chegou a enviar uma carta à prefeitura, propondo que o atleta seja processado por uma suposta difamação - ou seja, essas pessoas preferem ignorar as imagens disponíveis para sustentar uma tese tola e abominável.

Entretanto, esse não é um problema exclusivo do Verona, mas sim uma questão social. Na temporada passada, a promessa italiana, Moise Kean, foi alvo de ofensas racistas da torcida do Cagliari após marcar um gol e comemorar na frente da torcida adversária. Contudo, para alguns, o atacante também foi "culpado". Seu companheiro de equipe, Leonardo Bonucci, e o seu ex-treinador, Massimiliano Alegri, afirmaram que Kean teve "50%" de culpa, devido a uma suposta provocação aos torcedores.

Além deles, o presidente do Cagliari chegou a dizer que atletas brancos sofreriam as mesmas repreensões do jovem atacante italiano. No mesmo local, Lukaku também sofreu o mesmo que Kean e recebeu como resposta, um comunicado oficial dos Ultras. O grande ponto é que a nota partiu da torcida do seu próprio clube, a Internazionale. No texto, os representantes da Curva Nord afirmaram que essas atitudes fazem parte da cultura das arquibancadas do país, simplesmente para "desestabilizar o adversário".

Falta de representatividade


Roger Machado e Marcão tiveram um encontro marcante no Maracanã (Foto: THIAGO RIBEIRO/ AGIF)

E não podemos deixar de refletir sobre a partida entre Fluminense e Bahia. O confronto marcou o encontro entre os únicos dois treinadores negros na elite do futebol brasileiro, Marcão e Roger Machado, e muito se falou da pouca presença de pessoas negras em grandes cargos no futebol. Para se ter noção, nenhum dos 20 clubes da Série A possuem um presidente que seja negro.

Entretanto, podemos ampliar ainda mais essa questão representativa. Sem contar a falta de presidentes negros na história do Brasil, dentre os 54 governadores eleitos em 2014 e 2018, nenhum deles é negro. Indo ainda mais fundo, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), das 1.626 vagas para deputados distritais, estaduais, federais e senador, apenas 65 (ou 4%) acabaram preenchidas por candidatos autodeclarados negros. 

Com isso, fica o meu questionamento: será mesmo que isso é apenas uma coincidência? 

Nenhum comentário