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A Era dos Números

Por João Dannemann



Números. Talvez o conceito matemático mais precoce da existência humana. Tudo gira ao redor de números. Enquanto escrevo, os segundos passam, nos intocáveis toques no teclado, à medida que o coração, numa pulsação constante, bate. O basquete, como tudo no mundo, gira ao redor de números. Estatísticas são a alma do jogo, que se desenvolve junto com a capacidade de levantar dados.

Os primórdios numéricos do basquete

Wilt Chamberlain, por exemplo, jogou basquete numa era na qual as estatísticas eram as mais primárias possíveis. Pontos e assistências eram contabilizados, rebotes eram malmente contados, enquanto ninguém se preocupava em levantar dados essenciais para o jogo como tocos e roubos de bola, por exemplo. Imagina o quão seriam maiores as lendas de Chamberlain e Russell se esses números fossem exatos.

Para situar o leitor, a NBA só começou a contabilizar os tocos na temporada de 1973-74, que foi exatamente quando Wilt Chamberlain se aposentou, com médias de 30,1 pontos e 22,9 rebotes por jogo na carreira. Mas os números já eram importantes. Extraoficialmente, Chamberlain é o único jogador da história da liga a fazer um quíntuplo-duplo numa partida, em 18 de março de 1968, quando, segundo algumas fontes, ele terminara um jogo com 53 pontos, 32 rebotes, 24 tocos, 14 assistências e 11 roubos de bola. 

Vale lembrar, mais uma vez, que são dados extraoficiais, já que na época não se contabilizavam tocos e roubos de bola. Portanto, diz-se que ninguém jamais alcançou um quíntuplo-duplo na história. Mas, vocês percebem a importância dos números para o jogo? Leiam essas cinco estatísticas de Wilt em voz alta. Entendam o quão relevante é a afirmação dessas quantidades em uma partida de basquete. 

Chamberlain foi um revolucionário, um pioneiro. Ele, até hoje, detém o recorde de maior pontuação em uma única partida na história da NBA, quando fez 100 pontos, em 2 de março de 1962. A necessidade de numerar do jogo é tão grande, que a marca centenária do lendário pivô foi contada à mão por Harvey Pollack, antigo publicitário dos Warriors e foi anunciada ponto a ponto pelo narrador da arena Dave Zinkoff. Pollack, inclusive, foi responsável por escrever o número "100" em um papel e fazer a lendária foto com Wilt depois do jogo (veja abaixo).


Impulsionamento estatístico 

A partir da década de 1970 os números e estatísticas ganharam nova vida no esporte, com notoriedade em algumas situações. Estatísticas começaram a ser contabilizadas de forma mais ampla e específica. Mas foi a década de 1980 que determinou de vez essa cultura no basquetebol americano, principalmente para a televisão, ajudando na transmissão e na posição de comentar o esporte em si.

As emissoras começaram a levantar dados próprios, expandindo os horizontes numéricos do basquete. A década de 80 serviu para nos dar coisas como pontos no garrafão, nível de eficiência dos jogadores, plus/minus, dentre outras estatísticas mais aprofundadas. E, outra adição preciosa foi a da linha de três pontos. Como o próprio nome já sugere, mais números a serem computados. A partir daí, a importância da distância, do aproveitamento e da pontuação ficou ainda maior no basquete. Os números deixaram de ser suporte e passaram a ser a essência do jogo. 

Lendas no basquete são feitas através disso. Recordes inquebráveis, que duram décadas, como os 181 triplos-duplos (já não tão inalcançáveis) de Oscar Robertson, ou a impressionante média de 30,12 pontos por jogo na carreira de Michael Jordan. John Stockton, com suas intocáveis 15806 assistências e 3265 roubos de bola na carreira. E por aí vai. Recordes, números, estatísticas. Mas nenhuma era jamais foi como é a atual.


A verdadeira era dos números

Hoje, os números determinam tudo no basquete. Tudo. Inclusive, majoritariamente determinam qualidade. Numa era na qual as estatísticas gritam pelas telas, se um jogador não consegue manter boas médias, ele não é um jogador bom, útil. Utilidade no basquete é sinônimo de regularidade numérica. Hoje se quantifica tudo, todos os dados possíveis. Das mais úteis às mais inúteis estatísticas.

A cada partida isso se escancara mais e mais. Dá pra se avaliar coisas essenciais ao jogo, como, por exemplo o quanto cada jogador pontua a cada 100 posses. Isso é a estatística que prova a capacidade ofensiva de um atleta e que é absolutamente dominada pelo ala-armador do Houston Rockets, James Harden. Na temporada passada, 2018-19, ele teve a maior pontuação a cada 100 posses na história da liga, com 48,2. Superando temporadas absurdas como as de Kobe Bryant, em 2005-06, e Michael Jordan, em 1985-86, por exemplo.


Harden também foi responsável por outras marcas impressionantes. Ele se tornou o segundo jogador a conseguir mais jogos consecutivos fazendo pelo menos 30 pontos em um jogo, com 32 (atrás apenas dos 65 de Wilt Chamberlain). Aproveitando o gancho, nessa temporada ele também se tornou o único jogador na história a fazer pelo menos 30 pontos contra todos os 29 times adversários numa mesma temporada. A sua média de 36,1 pontos por jogo foi a maior da NBA desde os 37,1 de Michael Jordan, em 1986-87.

Enquanto o Barba se torna numa das maiores armas ofensivas da história da liga, outros jogadores também ganham destaque numérico massivo. Russell Westbrook consegue triplos-duplos como se fosse fundamental para o seu organismo sobreviver. Após quebrar o recorde de mais em uma temporada, em 2016-17, ele se tornou o único atleta na história a ter um triplo-duplo de média em três temporadas consecutivas. Agora, com 140 na carreira, está a 42 de se tornar o atleta na história com mais triplos-duplos.

Falando nessa estatística (que é uma das mais impressionantes do jogo), nessa temporada, em jogo entre Lakers e Mavericks, LeBron James e Luka Doncic se tornaram os primeiros jogadores na história da liga a conquistarem triplos-duplos com pelo menos 30 pontos e 15 assistências na mesma partida. Luka é o jogador mais jovem da história a conquistar dois triplos-duplos consecutivos.


Os números cada vez mais democráticos

Os exemplos são excelentes, falamos aqui de quatro das principais estrelas da liga, mas os números, as estatísticas, são cada vez mais amplas e democráticas no basquete. Hoje em dia, a quantidade de atletas conseguindo numerações monstruosas e statlines absurdas aumentou drasticamente. O jovem Trae Young, na sua segunda temporada na liga vem quebrando recordes e conseguindo números absurdos.

Já são médias de 26,3 jogos e 8,6 assistências por jogo na temporada. Sua estreia, contra os Pistons, foi já com 38 pontos. Young sofreu uma lesão no tornozelo, voltou rapidamente e já fez três jogos com pelo menos 30 pontos e 10 assistências. É o jogador mais jovem da história a conseguir 20 jogos na carreira com essas marcas, superando lendas como Magic Johnson, Oscar Robertson e John Stockton, por exemplo.

Karl-Anthony Towns, de 23 anos, já fez sete duplos-duplos em sete jogos. Dos sete jogos, foram seis com mais de 20 pontos, sendo um deles com 37 pontos e 15 rebotes, outro com 36 pontos e 14 rebotes. Médias impressionantes.

Na atual temporada, temos três atletas com mais de 30 pontos de média por jogo. James Harden com 37,1, Damian Lillard com 33 e Kyrie Irving com 30. Se a temporada acabasse hoje, nessas circunstâncias, seria a primeira nos últimos 15 anos com três jogadores tendo médias de pontuação superiores a 30.

Não só isso, mas temos 30 jogadores (de James Harden a Domantas Sabonis) com pelo menos 20 pontos por jogo de média. Para efeito de comparação, em 1990, por exemplo, a temporada acabou com 24 jogadores com 20 ou mais pontos por jogo. Em 2006, foram 23 atletas. Estamos falando de duas temporadas recheadas de craques e com altíssimas médias de pontuação.


Para deixar tudo mais amplo e democrático ainda, em 2019-20, com cerca de oito, nove jogos por equipe, já temos 133 jogadores com média de pontuação em duplos dígitos (10 ou mais por partida). Nessa altura, com quase três semanas de NBA, já podemos dizer que nenhuma outra temporada na história teve tantos atletas pontuando em duplos dígitos como essa, já que é a maior quantidade de jogadores nessa estatística após três semanas de jogos.

A evolução através dos números

Ainda pegando o gancho da democratização estatística do basquete, quando as médias tornam-se mais amplas e essenciais para todos os atletas, a evolução de jogadores se tornou ainda mais brutal. Para efeito de comparação, antes dos anos 2000, foram 15 premiações de jogador que mais evoluiu na NBA (começou em 1985-86) e apenas cinco dos premiados (33,33%) foram All-Star: Alvin Robertson, Dale Ellis, Kevin Duckworth, Kevin Johnson e Dana Barros.

Depois dos anos 2000, foram 19 premiações de MIP e 11 deles (57,89%) foram All-Star: Tracy McGrady, Jermaine O'Neal, Gilbert Arenas, Zach Randolph, Danny Granger, Kevin Love, Paul George, Goran Dragic, Jimmy Butler, Giannis Antetokounmpo e Victor Oladipo. Dos onze, dois deles foram candidatos finais ao prêmio de MVP na última temporada (George e Antetokounmpo). Isso só prova como a evolução dos atletas é mais relevante no século XXI, após a ascensão da era numérica.


Para analisar mais a fundo, basta pegar os dois principais candidatos ao prêmio de MIP na última temporada. O vencedor do prêmio, Pascal Siakam, e o segundo lugar, D'Angelo Russell. Em 2018-19, Siakam teve médias de 16,9 pontos e 6,9 rebotes por jogo, pelo Toronto Raptors. Na atual temporada, ele tem quase um duplo-duplo de média, mas com um acréscimo de dez pontos por jogo na sua pontuação: são 26,3 pontos e 9,5 rebotes. Já foram mais de 30 pontos em quatro partidas, sendo que, contra os Pelicans no dia 8 de novembro, ele bateu seu recorde pessoal de pontuação em um jogo: com 44 pontos.

Russell também já bateu seu recorde de pontuação em uma partida nessa temporada, no mesmo dia que Siakam. Foram 52 pontos contra o Minnesota Timberwolves. Nos seus últimos quatro jogos com os Warriors, desde a lesão de Stephen Curry, são 36,5 pontos por partida, média inferior apenas à de James Harden no mesmo período. Isso de um atleta que tinha 21,1 pontos e 7 assistências por jogo em média na temporada passada. Um salto monumental na carreira.


A importância

Vejam a relevância indescritível dos números em todas essas situações e estatísticas trazidas. Recordes que antes pareciam inquebráveis já não são tão distantes. Porém, o que nas décadas passadas era algo concentrado em poucos grandes jogadores, hoje se divide democraticamente num espectro de 30, 40 candidatos a All-Star, 50, 60 grandes jogadores (numa mesma temporada). A Era dos Números não vê um fim próximo, mas sim um futuro brilhante no esporte.

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