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Porque o Miami Heat será o time mais divertido de se assistir na NBA 2019-20

Por João Dannemann


Nada maior do que o hype dos fãs da NBA para a temporada que se inicia. Esse ano, a espera é mais que justificada. A liga parece ter, novamente, alcançado um equilíbrio após anos de uma dinastia dominante do Golden State Warriors. A formação de novos super-times foi só um aperitivo do que virá. 

Todos os holofotes estão virados aos grandes centros e às grandes estrelas. Nets, Lakers, Clippers, Rockets, Bucks, Warriors (porque não?), Sixers, Nuggets, Jazz... equipes que se reformularam e contam com elencos estrelados. Mas qual vai ser o time mais divertido de se assistir na temporada e porque vai ser o Miami Heat? 

Fator surpresa

Entendam a primeira parte da conceituação de "divertido" nesse texto. Enquanto todos os times citados acima (e mais alguns) recebem todas as atenções dos fãs, jornalistas e adversários, o Miami Heat corre por fora. Muitos nem apostam que o time de Erik Spoelstra alcance os playoffs. O Heat será divertido porque ninguém espera por isso. 

Toda temporada da NBA há aquele time que surpreende, que chega mais longe do que o imaginado, normalmente jogando um basquete limpo, moderno, recheado de jogadores que sabem o que fazer e entendem seu papel na equipe. A aposta desse ano vai para a equipe da Flórida. 

Para efeito de comparação, é como se fosse o Brooklyn Nets da temporada passada. Muitos apostavam que seria mais um ano de fracasso para a franquia, mas, na verdade, foi talvez a temporada mais importante desde sua mudança para Brooklyn. D'Angelo Russell assumindo um papel de líder, de All-Star, cercado por jovens promissores e experientes eficientes, levou os Nets aos playoffs (quando muita gente não esperava), jogando um excelente basquetebol.

Após isso, a franquia se fortaleceu e se reforçou brilhantemente para a atual temporada.

Jimmy é o novo D'Angelo

Assim como Russell desempenhou um papel acima do esperado na temporada passada, muito se espera de Jimmy Butler com o Miami Heat nessa temporada. Já é notável que Butler é um atleta problemático, que costuma ter dificuldades de aceitação nos times pelo qual passa, muito por sempre querer ser a principal estrela e nunca conseguir. Bom, com a camisa do Heat ele vai conseguir.

Jimmy atuou em grandes equipes desde sua chegada na liga. No Bulls, dividida vestiário com Derrick Rose, Pau Gasol Joakim Noah. Nos Wolves, um timaço ao lado de Towns, Taj Gibson, Jeff Teague. E, temporada passada, defendeu o excelente 76ers, com as superestrelas Joel Embiid e Ben Simmons. A verdade é que Butler nunca conseguiu brilhar sozinho. Ele tem essa chance agora. O time do Heat é muito bom, mas, além de Goran Dragic, ninguém foi All-Star na equipe, por exemplo.

Jimmy Butler (direita) posando com seus novos companheiros de Heat, Justise Winslow (esquerda) e Goran Dragic (centro). 

Com o Miami Heat, Butler será a primeira opção de pontuação e a principal arma defensiva de perímetro da equipe. É um jogador que pode facilmente se transformar no principal pilar da equipe dentro de quadra, caso a química com seus companheiros permita. Para garantir Butler, contudo, o Heat precisou ceder aos 76ers um dos seus grandes jogadores das últimas temporadas, Josh Richardson. Jimmy vai precisar provar que a troca foi válida. E, acreditem, ele tem muito o que provar em Miami.

Aí vem o BAM!

Podemos garantir que a pré-temporada do Miami Heat foi de absoluto sucesso quando eles conseguiram se livrar de uma peça que já vinha sugando as energias da franquia há um tempo: Hassan Whiteside. O pivô era titular absoluto no Heat há algumas temporadas, mas havia caído de produção inexplicavelmente, demonstrando frequentemente sua insatisfação em Miami. Enquanto isso, um jovem pivô vinha demonstrando vontade e evolução constante vindo do banco: Bam Adebayo.

O atlético, tenaz, forte, jovem pivô de 2,06 m e 115 kg ganhou os olhos, inclusive, do renomado, Gregg Popovich, que o convocou para participar do campo de treinamento da seleção americana de basquete nas vésperas da Copa do Mundo desse ano. A organização do Heat aposta muito que Bam possa ser uma grande força na liga já a partir dessa temporada, pelo seu poder atlético e desenvolvimento técnico, além de presença indiscutível em quadra.


A aposta no jovem é tão grande, que a franquia contratou apenas um novo pivô para a temporada, de não tanto renome, Meyers Leonard, ex-Portland Trail Blazers, que vem sendo utilizado como segundo pivô da equipe, que dá prioridade clara e absoluta a Adebayo em todas as jogadas de poste e corta-luz.

Vamos traduzir em números a clara evolução de Bam, mesmo em apenas três jogos na atual temporada. Em 2018-19, ele jogou todos os 82 jogos da temporada, sendo titular em apenas 28. Suas médias foram de 8,9 pontos, 7,3 rebotes, 2,2 assistências e 0,8 tocos por jogo. Para um reserva na sua segunda temporada na liga, bons números. Como titular, na atual temporada, em três jogos, Bam já elevou todas as suas médias, inclusive garantindo um duplo-duplo por jogo, com: 15,3 pontos, 11 rebotes, 5,3 assistências e 1,3 tocos, com 53,8% de aproveitamento nos arremessos de quadra.

Fábrica de atletas

Não é nenhum exagero dizer que o Miami Heat, hoje, é o time mais atlético da NBA. Isso torna tudo mais divertido. Ver um jogo do Heat é estar constantemente se esgueirando na beira do assento aguardando alguma jogada incomum acontecer. A equipe é recheada de aberrações da natureza em atleticismo puro e inato.

Estamos falando de caras como Derrick Jones Jr., por exemplo, que talvez seja o maior enterrador da NBA na atualidade e tem o maior salto vertical da liga. Jones é dono de enterradas emblemáticas, como a considerada "enterrada do ano" da liga na última temporada, contra o Toronto Raptors (veja abaixo). Na atual temporada, em dois jogos, Jones já deu duas fortíssimas candidatas ao prêmio novamente e promete muito mais.


Além dele, dois caras que podem e são capazes de pôsteres surreais toda noite são o veterano James Johnson e Justise Winslow. Jogadores fortes, rápidos, com um excelente salto vertical. Bam Adebayo também entra na lista, obviamente. Dos dois lados da quadra, seu impacto atlético é absurdamente relevante, mudando o centro de gravidade do jogo quando passeia pelo tablado.

Duncan Robinson, Chris Silva e Meyers Leonard não ficam a trás. Os três pivôs são donos de portes atléticos invejáveis a qualquer outro atleta da liga. Capazes de modificar o jogo com potência aliado a dinâmica, são três caras que podem surpreender com jogadas diferentes toda noite, tendo uma durabilidade enorme para atletas de tanto poderio físico e tamanho.


A aposta vem do draft

Existe algo com a décima terceira escolha no draft da NBA que pouca gente sabe explicar. Normalmente é um ala-armador promissor, pontuador, que poderia ser escolhido em um lugar mais alto (e por algum motivo inexplicável não é). Kobe Bryant, Devin Booker, Donovan Mitchell são bons exemplos da magia que existe na escolha de número 13. Esse ano, o décimo terceiro escolhido no draft foi do Miami Heat. Pontuador, promissor, ala-armador: Tyler Herro.

Herro mostrou já na pré-temporada que não veio à liga para brincar. Fez uma campanha invejável e se mostrou muito mais maduro a entrar no basquetebol profissional do que muitos imaginavam. Ele é um ala-armador pontuador completo. Capaz de criar seu próprio arremesso, com bom controle de bola e excelente movimento de pés, além de ser muito bom também na movimentação sem a bola, para receber e arremessar.

Normalmente, em novatos, é mais fácil desenvolver outras habilidades do que um bom arremesso. O fato de Herro já ter um arremesso sensacional se sobressai por isso. Ele terá tempo e disposição para desenvolver suas outras habilidades (não que ele precise). Também é um excelente infiltrador, apesar de nem sempre precisar, já que utiliza bem suas armas de média e longa distância.


O camisa 14 também não deixa a desejar na defesa, apesar de ser o aspecto no qual ele precise mais evoluir. É bom na defesa sem a bola, mas não tanto na defesa de bola. Consegue ter boa recuperação em tocos e roubos de posse, mas pode melhorar. Além de tudo, é outro atleta para a lista dos atléticos do Heat. Olhando para a sua figura ninguém diz, mas Herro é capaz de saltar bastante verticalmente, compensando sua estatura mediana e sua envergadura não tão imponente.

Só para vocês terem ideia do quanto a organização do Heat aposta no jovem jogador, ele foi o motivo da franquia não garantir uma troca por Russell Westbrook. Antes da vinda de Jimmy Butler, o Heat era o destino favorito do ex-armador do Thunder e compartilhava de um interesse mútuo. Isso até o momento em que a franquia de Oklahoma disse que só trocaria Westbrook para Miami caso Tyler Herro e Bam Adebayo estivessem incluídos no pacote. Pat Riley nem ouviu o resto, ficou com seus jovens, Westbrook foi para os Rockets e o salário máximo do Heat ficou com Jimmy Butler, vindo do Philadelphia 76ers.

Surpreendentemente, o outro cara do draft do Heat não é o ex-Stanford e escolha número 32, KZ Okpala. Na verdade, esse cara nem foi draftado. Estamos falando de Kendrick Nunn, armador que fez chover na pré-temporada, principalmente quando marcou 40 pontos contra o Houston Rockets de Russell Westbrook e James Harden, o que praticamente garantiu sua assinatura de dois anos com a franquia de Miami.


Nunn vem jogando em modo besta desde que a temporada começou. O camisa 25 colocou (de forma justa) ninguém menos que Goran Dragic no banco e, nos três jogos até aqui já fez 24, 18 e 25 pontos, garantindo uma média de 22,3 por jogo, além de 3,3 assistências e 3,3 rebotes. O armador é versátil, atlético, rápido, lépido, tem um bom arremesso e uma melhor ainda infiltração. Promete dar o que falar em 2019-20 e pode ser um dos poucos novatos não-draftados dessa classe a ter algum sucesso.

Uma organização de sucesso

A verdade é que o Heat, de Pat Riley, merece sempre o respeito devido quando uma nova temporada se inicia. Riley assumiu a presidência de operações da franquia e desde então conquistou três títulos da NBA (os únicos de sua história) e cinco títulos da conferência leste. Riley é dono de uma história rica na liga e, à frente do Heat, tem uma bela parceria de sucesso com o técnico Erik Spoelstra.

Spoelstra, por sua vez, surgiu como uma aposta. Foi assistente técnico na campanha do título de 2006 e treinador principal nos títulos de 2012 e 2013 da franquia. São longos 22 anos com a franquia (11 como assistente e 11 como treinador), o que torna mais que indiscutível a sua posição e competência no cargo.

Pat Riley (esquerda) e Erik Spoelstra (direita) em treinamento do Miami Heat.

Erik é o tipo de técnico que consegue trabalhar excelentemente com o que possui. O dê uma equipe recheada de estrelas e ele vai conseguir pôr pra jogar. O dê uma equipe recheada de cabeças de bagre e ele vai conseguir pôr pra jogar. Agora, com um time jovem e atlético em mãos, Spoelstra tem todos os ingredientes para, mais uma vez, alcançar os playoffs e conseguir assinar seu nome em mais uma bela temporada com o Miami Heat.

É claro que não é uma equipe que brigará por título. É claro que não é uma equipe absoluta e sem defeitos. Mas o Heat está sendo esquecido quando não deveria. Se fosse para apostar em um time subvalorizado esse ano, seria neles. Com a modernidade do jogo da franquia, pelo menos os fãs vão se divertir assistindo essa equipe jogar toda noite.


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