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O que eles não vão te contar sobre Zion Williamson

Por João Dannemann


Zion Williamson em jogo da NCAA, defendendo Duke. (Foto: Bleacher Report).

A espera e o hype exagerado

Com a temporada da NBA no horizonte próximo, a longa espera para o surgimento de Zion Williamson está logo virando a esquina. E, como o jovem talento mais hypado desde LeBron James, é quase impossível evitar a atenção que o rodeia. A boa e a má. Mas, a boa é justificada e a má é uma avaliação precisa do que virá? Não é nenhum exagero dizer que Zion é, possivelmente, o novato mais antevisto a entrar na liga na história. E, honestamente, isso tem que parar. 

Na semana passada a ESPN divulgou a sua lista com os 100 melhores jogadores da temporada 2019-20 da NBA. E, imediatamente, a maioria dos fãs da liga com um mínimo de intelecto jogaram a lista no lixo. Para te dar uma ideia do que nós estamos lidando, a ESPN classificou Zach LaVine, um dos melhores jovens talentos da NBA, abaixo de Jaren Jackson Jr., um atleta de 19 anos recém-saído da sua primeira temporada. 


Eles também classificaram Andre Drummond abaixo de Jaylen Brown. Drummond é duas vezes All-Star e acabou de sair da melhor temporada da sua carreira. Brown é um titular não afirmado que teve uma recaída na sua terceira temporada na liga. Dois jogadores vastamente diferentes, com papéis diferentes, mas Drummond é objetivamente o mais produtivo e mais valioso na comparação. 


E digo com todo respeito a Jackson e Brown. São dois bons jovens jogadores, com muito potencial. Não é culpa deles que a ESPN não sabe constuir um ranking preciso. Mas, é esse tipo de coisa que faz com que essa lista perca a credibilidade. Para piorar, a ESPN rankeou DeMar DeRozan na 46ª posição e Klay Thompson na 49ª. Klay Thompson. 49º. 60 pontos em três quartos. 49º. Mais bolas de três em um jogo na história. 49º. Três vezes campeão da NBA. 49º. Isso pode ser pelo fato de que Klay está lesionado, ms mesmo assim eles o classificaram como 49º (caso você ainda não tenha entendido). 


Mas, como se isso não já fosse suficientemente suspeito, eles classificaram Zion Williamson, um garoto de 19 anos que nunca jogou um único jogo de NBA na sua vida, como o 42º melhor jogador da liga. Isso é absurdo.  Não é justo como jogadores estabelecidos na liga, não é necessariamente preciso e não é justo com o próprio Zion. Nos nove anos que a ESPN vem fazendo esse ranking de jogadores na pré-temporada, Zion está classificado mais alto do que qualquer novato antes dele. 

A ESPN justificou: "é compreensível, já que Zion é um dos atletas mais promissores a entrarem na liga em uma memória recente". O que, na verdade, faz sentido. A lista de primeiros escolhidos em drafts das últimas nove temporadas é bastante decepcionante. Até então, Anthony Bennett é a maior decepção da história da NBA, Markelle Fultz esqueceu como se arremessa uma bola de basquete, Kyrie Irving jogou apenas 11 jogos na faculdade e DeAndre Ayton e Karl-Anthony Towns foram sólidas primeiras escolhas, mas não tão hypados saindo da faculdade. Pelo menos não tanto quanto os quatro que restam: Zion Williamson, Ben Simmons, Andrew Wiggins e Anthony Davis.

Mas, o quão preciso é para a ESPN e para os fãs de basquete em geral dizer que Zion Williamson é mais promissor do que Anthony Davis foi, por exemplo? Davis liderou Kentucky para o título da NCAA, venceu o prêmio de MVP da NCAA, foi o jogador universitário mais excepcional do ano segundo a Consensus e venceu o prêmio Naismith de jogador do ano. Ele é, discutivelmente, o melhor jogador universitário de uma só temporada na história. Se tudo isso apenas lhe rendeu a 62ª posição como melhor jogador da NBA enquanto novato, o que garante a 42ª posição para Zion?

Fraquezas e dúvidas

Entre as fraquezas do jogo de Zion, as mais reconhecíveis são sua falta de habilidade ao arremessar e sua inabilidade de pontuar em qualquer outro lugar da quadra que não seja logo abaixo da cesta. Também sua falta de habilidades gerais, como controle de bola, passes e, de novo, uma forma de arremesso estável. E, é claro, seu tamanho, o que tende a ser a maior interrogação quanto a ele hoje. Muito baixo para jogar como ala-pivô, muito pesado para lidar com a demanda física de uma temporada da NBA.

Preocupações para com seu peso tem varrido a NBA nessa pré-temporada. E, quando se joga da maneira que Zion joga, é apenas uma questão de tempo para que essa moldura comece a se desfazer sozinha. Seria interessante ver como exatamente a estrutura física de Zion se dá em comparação aos outros jogadores da NBA. Quero dizer, ele não pode ser tão diferente assim, certo? Errado. 

Abaixo está um gráfico contendo todos os jogadores da NBA, sua altura e seu peso. Como você pode ver todos os jogadores caem numa mesma zona diagonal, um balanço saudável entre altura e peso, mais conhecido como índice de massa corporal. De Isaiah Thomas a Chris Paul e Stephen Curry, passando por Devin Booker, LeBron James, até o topo, onde podemos ver Giannis e Anthony Davis. Mais ao topo ainda, está Boban Marjanovic. Cada jogador ativo na NBA, todos os 530 em um gráfico. E, como você pode ver e já foi falado antes, existe uma clara constante. Essa região é considerada como o ideal de proporção entre altura e peso para um atleta da NBA e inclui todos os jogadores da liga, de Isaiah Thomas (1,75m e 84kg) a Boban Marjanovic (2,21m e 132kg). Todo jogador ativo na NBA se encaixa nesta área do gráfico. Bem, nem todos eles. Lá, bem longe da zona está Zion Williamson.

Gráfico mostrando a proporção altura/peso de todos os atletas ativos na NBA 2019-20 (em libras e pés).

É, quando as pessoas dizem que Zion não tem uma forma física convencional para um jogador de basquete, elas não estão mentindo. E, goste você dele ou não, esses são todos pontos muito válidos. Se a história nos conta algo bem é que esse tipo de jogador normalmente não transita bem do basquete universitário para a NBA. Jogando um basquete mais rápido, mais forte e mais alto é muito mais difícil contra os melhores atletas do mundo.

Portanto, eu te pergunto: a habilidade de Zion de jogar abaixo do aro, supera o fato de que ele não tem muitas qualidades essenciais para um jogador dominante? Bom, e se, depois disso tudo, eu te falar que na verdade ele não deixa a desejar nas habilidades necessárias para dominar completamente a liga?! E se eu te falar que a sua forma física não é sua algoz, mas, na verdade, sua maior aliada?! E se eu te falar que o hype ao redor de Zion é 100% garantido e que há números para comprovar?!

A melhor resposta se dá em quadra

N última temporada, Zion fez sua estreia no basquete universitário e imediatamente mostrou ao mundo que ele era o cara. Mas, se você apenas assistir a seus melhores momentos, pensaria que ele só sabe enterrar e jogar fisicamente. E, é claro que quando trata-se de seus críticos, esse é o primeiro argumento. Mas se você realmente assistir a seus jogos e olhar para os números, perceberia que existe uma razão porque ele vem sendo apontado como o próximo grande nome da liga.

Tem o óbvio atleticismo monstruoso que parece desafiar todas as leis da física, têm as enterradas que, inevitavelmente, sempre acabam no Sports Center, mas ainda tem muito mais que só isso. Portanto, vamos começar por suas habilidades defensivas, o aspecto mais subvalorizado do jogo de Zion. Na última temporada, como ala-pivô, Zion liderou a ACC em roubos de bola, foi eleito para o time ideal defensivo da Conferência e mostrou seus incríveis dotes defensivos durante toda a temporada.

Se tem algo que Zion já mostrou ser perfeito, é a habilidade dele de conseguir usar o seu atleticismo para elevar seu jogo a um patamar mais alto. Por exemplo, nem sempre as pessoas falam da sua rapidez. A sua capacidade de defender jogadores das cinco posições e aplicar pressão em qualquer lugar na defesa. Nós estamos falando de um cara que consegue bloquear um arremesso 50 centímetros acima do aro em uma posse, correr a quadra toda e marcar o jogador mais rápido da equipe adversária, desarmando-o na posse seguinte. Os melhores momentos só vão te mostrar as enterradas absurdas que ele vai dar, mas não vão te mostrar as variadas jogadas defensivas que ele é capaz de fazer do outro lado da quadra, que dão início aos contra-ataques.

Muitos vão argumentar que a grande maioria dos seus pontos vêm de um jogo extremamente físico, normalmente abaixo da cesta. Mas quando 70% dos seus arremessos são convertidos, porque ele iria mudar seu estilo e sair do garrafão? Perceba, o atleticismo de Zion não pára com sua explosão física. O seu controle corporal e tempo de bola são quase imaculados. E, apesar desses parecerem pontos fáceis normalmente, Williamson consegue se esgueirar e chegar em posições nas quais ele tem um melhor desempenho, tornando seu esforço recompensado.

Nós víamos muito isso em Dennis Rodman e, mais recentemente, em Draymond Green. Alas-pivôs mais baixos que o normal, que usam seu senso de posicionamento e inteligência em quadra, para pegar mais rebotes e jogar melhor do que seus oponentes. Quanto mais assisto Zion jogar, mais vejo esse Q.I. de basquete elevado em seu jogo. E é esse Q.I. que lhe permite usar todas as suas forças a seu favor, mantendo suas fraquezas cada vez menores.

Isso tudo permitiu Zion a ter a maior efetividade em arremessos de quadra na NCAA temporada passada, junto com a maior efetividade dentre todos os atletas, maior eficiência dentro do garrafão e maior eficiência em arremessos de dois pontos na história da NCAA. Portanto, ele pode não pegar todos os rebotes, ele pode não ser o cestinha sempre, mas quando ele está em quadra, ele não só modifica toda a gravidade do jogo, mas é, estatisticamente, de longe, o melhor jogador.

Traduzindo em números

Voltando à comparação com Anthony Davis, aqui estão os números de AD na sua primeira e única temporada com Kentucky (novamente, considerado o melhor atleta de uma temporada na história da NCAA):

- pontos por jogo: 14,2;
- rebotes por jogo: 10,4;
- assistências por jogo: 1,3;
- roubos de bola por jogo: 1,4;
- tocos por jogo: 4,7;
- aproveitamento nos arremessos de quadra: 62%;
- aproveitamento de lances-livres: 71%;
- eficiência dentro do garrafão: 10,7;
- efetividade do jogador: 35,1.

Aqui estão os de Zion na sua última temporada, por Duke (em verde, todos os atributos nos quais ele superou AD):

- pontos por jogo: 22,6;
- rebotes por jogo: 8,9;
- assistências por jogo: 2,1;
- roubos de bola por jogo: 2,1;
- tocos por jogo: 1,8;
- aproveitamento nos arremessos de quadra: 68%;
- aproveitamento de lances-livres: 64%.
- eficiência dentro do garrafão: 20,0;
- efetividade do jogador: 40,8.

Realmente coloca tudo em perspectiva. Você constantemente vai ouvir as pessoas comparando Zion a LeBron James, mas essa comparação não faz nenhum sentido. Diferentes habilidades, diferentes mentalidades e diferentes físicos. Portanto, ao invés disso, aqui abaixo está um gráfico que compara os números de dois jogadores universitários que eu acho que se assemelham mais com Zion. Um foi MVP da NBA e o outro foi jogador do ano Naismith e duas vezes All-Star. O primeiro, Charles Barkley, o segundo, Larry Johnson. Dois jogadores que tiveram carreiras de muito sucesso no basquete universitário e que transitaram sem muito esforço para a NBA.

Gráfico comparando os números de Charles Barkley, Larry Johnson e Zion Williamson no basquete universitário.

Inclusive, Barkley teve uma carreira de Hall da Fama sendo um ala-pivô abaixo do tamanho que consegue pôr a bola na cesta, com vontade, e ter mais rebotes do que todo mundo. Larry Johnson, antes das lesões, se tornou um All-Star já na sua segunda temporada na liga, puramente pela sua tenacidade e atleticismo. Dois jogadores com formas físicas e de jogo similares às de Zion. O que me leva a meu próximo ponto: lesões.

Digo isso pois quando você joga de forma tão rápida, alta e forte como Williamson, lesões se tornam uma preocupação séria. No caso de Larry Johnson, por exemplo, lesões foram o começo do fim. Mas, se Zion conseguir evitar as catástrofes e permanecer em quadra, é mais que claro que ele tem todas as ferramentas para se tornar uma grande estrela.

Outra grande preocupação para com o jogo dele é o seu arremesso (ou a falta de). Mas, novamente, quando você olha para os números, isso não vem ao caso. Quando tem oportunidades, Zion arremessa a bola e garante aproveitamentos medianos. Considerando sua usagem e o fato de que ele é um ala-pivô de 130kg, isso está longe de ser a narrativa que o destruirá.

Se você analisar o gráfico de eficiência e usagem dos melhores jogadores universitários da NCAA na temporada passada, você verá que Zion está flutuando na sua própria ilha deserta, completamente isolado e num outro nível do que seus companheiros.

Gráfico de eficiência e usagem dos 30 melhores jogadores universitários da NCAA na última temporada.

Qual patamar ele precisa alcançar imediatamente?

Portanto, em termos de hype, é realmente tudo justificável? Que tipo de números individuais Zion teria que alcançar na sua temporada como novato para ser considerado um sucesso? 15 pontos, oito rebotes e cinco assistências por jogo? Que tal 20 pontos, 10 rebotes e cinco assistências por jogo? E se ele só tiver 54% de aproveitamento nos arremessos de quadra?

Eu não tenho certeza se as pessoas considerariam esses bons números em termos de padrões de Zion. Mesmo assim, esses são os números que Karl-Anthony Towns conseguiu como novato na NBA, levando o prêmio de Rookie do Ano - de forma unânime. Ele estava cabeça e ombros à frente dos outros. E, com toda certeza, se Zion tiver essas médias na próxima temporada, os fãs da NBA dirão que esperavam mais dele, mesmo com o fato de que isso são números próximos de jogadores All-Star.

Para efeito de comparação, abaixo estão os números da temporada de novato dos últimos dez pivôs e alas-pivôs a serem introduzidos no Hall da Fama do basquete. Números que estão completamente no alcance de Zion e ele já provou isso nos seus três primeiros jogos da pré-temporada.

Números e médias das temporadas de novato dos últimos 10 pivôs e alas-pivôs introduzidos para o Hall da Fama do basquete.

Ele é o novo LeBron? O novo Charles Barkley? Porque não o novo Larry Johnson? Ou ele é simplesmente o primeiro e único Zion Williamson. Colocar esses incríveis e quase intocáveis rótulos neste garoto é apenas uma receita para o desastre. Mas, para um menino de 19 anos com o mundo sobre seus ombros, eu acho que ele vai se sair bem. 


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