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Exclusiva com Marcelo Ramos: "Eu realmente seria dispensado, por incrível que pareça, por deficiência técnica"

Por: Aloysio Petitinga Neto e Marcelo Noia

Marcelo Ramos foi ídolo no Bahia, no Cruzeiro e no Santa Cruz (Foto: Infoesporte/Globoesporte.com)

Gols. Muitos gols. Assim foi marcada a carreira de Marcelo Ramos. O ex-atacante que marcou época em clubes como o Bahia e o Cruzeiro, por exemplo, concedeu entrevista ao Portal EntreLinhas e falou sobre a sua carreira. Em nosso especial, dividimos a entrevista com Marcelo Ramos em três partes. Confiram a primeira delas!

Aloysio Petitinga Neto: Como foi a sua chegada ao time profissional do Bahia?

Marcelo Ramos: Bom, eu fui pro clube com 13 anos, depois de um torneio chamado "Copa Dente de Leite", onde joguei pelo time do bairro em que nasci e fui criado, na Vasco da Gama, junto com outros jogadores do colégio Antônio Vieira. Consegui me destacar contra o Bahia e recebi o convite para fazer um teste, que hoje é chamado de "avaliação". Após isso eu fiquei durante seis meses no Bahia e depois retornei. 

Na época, eu não tinha essa ambição, essa vontade de ser jogador de futebol, apenas queria estar brincando, era somente uma criança de apenas 13 anos e não tinha esse pensamento. Depois eu retornei com 16, já mais maduro, na minha adolescência, jogando bem e atuando também em campeonatos de bairro contra adultos. Foi muito rápido essa sequência. No juvenil eu fui artilheiro, com 17 anos eu já estava no juniors (sub-20) e com 18, eu já estava fazendo minha estreia no profissional, marcando gols.

Aloysio Petitinga Neto: Muitos não sabem, mas você quase foi dispensado do Bahia com 13 anos. Como foi essa história?

Marcelo Ramos: Como falei antes, fiquei apenas 6 meses no Bahia e eu realmente seria dispensado, por incrível que pareça, por deficiência técnica. Mas o futebol é assim. Por isso eu falo com os garotos de hoje, que você não pode desistir nunca, porque as vezes, para um profissional você não tem tanto talento, mas de repente para outro você pode ter. 

Isso aconteceu não só comigo, mas com outros jogadores também, até em um nível maior que o meu, como por exemplo, no caso de Cafú, que fez 11 peneiras, foi dispensado em praticamente todas e acabou sendo um dos maiores jogadores da história da Seleção Brasileira e Mundial. Portanto, você não pode desistir porque o futebol muda muito rápido.

Marcelo Noia: Você teve algum jogador experiente que lhe ajudou nessa transição? Ou algum técnico?

Marcelo Ramos: Sim, principalmente no meu retorno ao juvenil (sub-17), eu tive o Luciano Reis, que foi meu primeiro treinador após o meu retorno em 1989. Eu, na verdade, queria ser jogador de vôlei e jogava vôlei na Associação Atlética de Vôlei da Bahia, enquanto Luciano Reis dava aula de futebol no campo que existia na própria Associação. Aí, um amigo em comum nosso pediu para que eu retornasse ao Bahia e ele foi fundamental nessa minha readaptação ao futebol. 

Eu até conversava com um vizinho meu, que a minha vontade de jogar vôlei é tão grande que eu nem procuro ficar jogando bola, ficar pegando o baba, porque a gente procura sempre estar jogando vôlei. Mas enfim, o destino quis que eu me tornasse um jogador de futebol, graças a Deus. No fim, é agradecer a Deus e claro, também a minha dedicação, ao meu empenho e a muito sacrifício, que fizeram com que eu tivesse essa carreira de muito sucesso.

Aloysio Petitinga Neto: Você ficou conhecido aqui como "Carrasco dos BaVi's", em Minas como a "Flecha Azul" e lá no Santa Cruz como "Matador do Arruda". Ficou faltando algo na carreira?

Marcelo Ramos: Esses clubes, como você falou, eu fiz muito sucesso e tive um nível muito alto. Joguei no São Paulo, no Palmeiras, onde também fiz muitos gols, também atuei na Holanda (PSV), no Japão (Sanfrecce Hiroshima e Nagoya Grampus), na Colômbia (Atlético Nacional) e também fiz muitos gols. Só que, nesses três clubes que você citou, realmente foi bem diferente, principalmente no Bahia e no Cruzeiro, onde foi o meu auge, ali dos 19 até os 23 anos. Quando fui para a Europa estava jogando em um nível muito alto, tanto que cheguei a Seleção Brasileira e aí me deram esses apelidos.

Carrasco dos BaVis é porque quando eu jogava contra o Vitória, tive uma média muito boa. Acho que marquei mais de 10 gols em 20 clássicos. Já no Cruzeiro, como sempre falo em minhas entrevistas, é uma loucura maravilhosa. Sempre consegui jogar muito bem com a camisa do Cruzeiro, foram cinco anos e meio jogando lá e ser o segundo jogador que mais ganhou títulos com essa camisa é muita felicidade, é uma honra muito grande, porque lá se passaram grandes jogadores, tem muitos ídolos. 

Vira e mexe, eu venho recebendo homenagens lá de Minas Gerais, de todo o Brasil, de todos os cruzeirenses. Ganhei 14 títulos e só faltou para mim, ganhar o Mundial, que é o sonho de todo jogador. Mas enfim, fui duas vezes campeão da Copa do Brasil, campeão do Campeonato Brasileiro, da Libertadores, quatro Campeonatos Mineiros e Recopa Sul-Americana.

Depois veio o Santa Cruz, já quase terminando a carreira, onde eu me tornei o "Matador do Arruda". Realmente foi uma passagem maravilhosa por Recife, tive na cidade tem pouco tempo, sempre sou reconhecido nas ruas e isso é motivo de muito orgulho, uma gratificação muito grande, porque depois de tanto tempo que eu parei de jogar, você voltar assim a essas cidades é muito legal, não tem preço.

Marcelo Noia: Você jogou no Japão, na Colômbia, na Holanda, qual foi o país que você teve mais dificuldade de adaptação? Seja por cultura ou estilo de futebol?

Marcelo Ramos: A Holanda foi mais difícil pela idade, pela inexperiência e até pela falta de paciência de continuar na Europa. Era um frio impressionante, onde eu tive muita dificuldade. A língua era bastante difícil também, mas a gente tinha aula. Eu, Vampeta e Cláudio. O velho Vamp se soltava e eu, mais tímido, como sou até hoje, tive mais problemas. Porém, no começo foi muito bom, fiz 12 gols em 26 jogos e ainda hoje, falo com um pessoal do PSV, que tem um Instagram onde a rapaziada ainda posta muita coisa bacana lá, como os meus gols. 

Depois de um ano na Holanda, apareceu a oportunidade de retornar ao Cruzeiro e após retornar o Cruzeiro, eu marquei o gol no maior público da história do Mineirão, contra o Villa Nova-MG, ganhamos a Libertadores e o Cruzeiro me comprou novamente. Então não tive tempo de ter uma adaptação melhor lá na Europa. Meu sonho era de ter sucesso lá, de querer retornar para o PSV, mas o Cruzeiro me comprou e eu tive êxito também. 

No Japão, que eu achei que seria mais difícil, apesar de não ser "super tranquilo", mas foi melhor, justamente por estar com mais idade. Fui para o Japão com 28 anos e no futebol, é a idade que você está mais maduro e bem fisicamente, então a adaptação e rendimento foi bem melhor.

Pelo Nagoya Grampus, meu primeiro clube, vivem muitos brasileiros na cidade e lá eu pude atuar com Ueslei Pitbull, que já atuava por lá. Então ele já me deixava "na cara do gol", já me levava nos lugares e a gente tinha muitos brasileiros por lá, então não tinha muita dificuldade. Por fim, no Sanfrecce Hiroshima, meu segundo clube, foi ainda melhor, pois subimos o time da segunda para a primeira divisão.

Aguardem as próximas duas partes, que irão sair nos próximos dias!

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